Era uma vez na Avelândia
Há muito tempo atrás existia um lugar no céu onde viviam bandos de aves diferentes: corvos, águias e demais. Mas a disputa entre os corvos e as águias para liderarem o território inteiro das aves era imensa.
A avelândia crescia muito desordenadamente, com imensas desigualdades, visto que a educação pública era péssima e a rede privada só educava para a exclusão. Calopsitas eram discriminados por serem muito alegres e saltitantes. Pássaros pretos e rolinhas eram discriminados por causa da cor das penas. As libélulas, ah! As coitadinhas tão lindas, eram discriminadas por viverem bicando aqui e ali, com seu colorido bater de asas, de sorte que todos os bandos que não se igualassem aos corvos eram discriminados. E até exigir que fossem terrivelmente crentes em suas ideias, eles queriam.
O preconceito e a intolerância se espalhavam mais a cada dia. O que se via eram as aves de todos os tamanhos, portes e cores tentando se igualarem ao modelo que estava na liderança.
A Avelândia era cheia de diversidade, mas após inaugurar uma rede de comunicação de massa que ditava modelos de beleza a serem seguidos, foi um tal de ave tentar diminuir de tamanho, emagrecer, colorir as penas, pintar as garras e os bicos; ficarem nas copas dos jequitibás, paus brasis e grandes palmeiras, para assistirem ao vivo e em cores o que o bando das líderes fazia, para fofocarem entre si, copiarem os comportamentos e tentarem cada vez mais se ajustarem ao ‘modelo’ ali apresentado.
Enquanto isso, o bando de águias trabalhava sem parar em favor da igualdade, da inclusão e estudava e pesquisava e acolhia os diferentes. As águias conseguiram espalhar condomínios de ninhos para garantir moradia digna aos mais desamparados; cesta mensais de sementes e frutos para todas em condições de risco; cotas de vagas nos ninhos de saber das corujas, para diminuir as desigualdades a médio prazo.
Nem preciso dizer que foram tempos de alegrias para os bandos menores e diferentes, mas os construtores Joãos-de-Barro e demais poderosos começaram a fazerem reuniões secretas para conseguirem ‘qualquer coisa’ para tirar as águias da liderança.
A Avelândia virou um caos. Passeatas de calopsitas, papagaios, araras e demais coloridos com a bandeira do arco-íris, que representava toda sorte de variadas escolhas de formação de famílias.
Houve carreatas de urubus vestidos de Zé Carioca, em verde e amarelo, para enganarem o pessoal que gosta de dinheiro. Teve muita greve das corujas das casas do saber e com tanto pandemônio criado e a imensa ajuda da rede de comunicação de massa dos papagaios repetidores e periquitos monossilábicos, os corvos, liderados pelos corvos fardados, conseguiram golpear a Águia líder bem na cabeça e prenderem a Águia macho que articulava a reorganização da Avelândia. Foi um golpe baixo, muito baixo...
Foi uma revoada de muitos bandos golpistas, liderados pelos urubus pensantes e com a adesão das alienadas e ignorantes, que facilmente servem de massa de manobra, já que focam muito na estética e esquecem de lerem e estudarem para conhecerem a diferença das duas ideologias: uma excludente e a outra inclusiva.
Foi assim que o escolhido dos urubus fardados chegou ao ninho alvorada para ser um ventríloquo dos excludentes ou, em outros momentos, o arrotador de toda sorte de carniças ingeridas ao longo de sua vida inteira, de comedor de preguiças mortas.
Mas como nada é tão ruim que não possa piorar, chegou uma doença ‘pinaúna’ que assolou todo o universo das aves, mas continua matando milhões e milhões de Avelandenses.
E a Avelândia não tem vacinas, todos os bandos reclamam, a rede de comunicação de massa só fala nisso, mas ninguém faz nada porque o chefe da casa das leis não tem coragem de aceitar todos os pedidos para destituírem o urubu-rei do taokei. Até quando todos os avelandenses vão continuar a serem liderados pelo arrotador de carniça???
*Este texto é uma ficção, qualquer semelhança com alguma situação existida não é mera coincidência.
A autora Elza Ramos é Mulher de Axé, publicitária, pedagoga e iyalorixá